
Somos só dois
Sim, só os dois
Suficientes para um abraço
Bastantes para um beijo
Dois seres
Para enrodilhar corpos
Um no outro.
Os dois,
Unos, mas divisíveis.
Coexistentes.
Dois…
Ontem vi-me na tela do cinema. Não era bailarina, mas também perseguia uma perfeição imperfeita.
A dicotomia daquele ser, forte e frágil, também é a minha.
Porque é que vivemos perseguindo uma imagem construída em imaginário?
Porque é que nos dizem que não podemos alcançar a perfeição, se ela é possível? Nem que só por uma ínfima porção de tempo, ela é alcançável e tangível.
Não me chocou aquela brutalidade do sentir, senti-a familiar.
Todos somos seres disfuncionais, nascidos em famílias disfuncionais, com pais não menos nem mais disfuncionais. E crescemos e vivemos. Melhor ou pior. Lidamos com a nossa própria disfuncionalidade, e a dos outros. Lidamos com a nossa frustração, que também pode ser a dos outros, e até pode ter nascido neles.
Carregamos essa matéria em nós, e ela é fardo pesado. Matéria constituída por expectativas, ilusões, sonhos, projecções.
A história é simples, a forma de a contar, excelente.
A falta de iniciativa é uma doença muito grave.
Pessoas que se acomodam às rotinas diárias, pessoas que não procuram viver melhor, pessoas sem sonhos ou desejos.
Pessoas assim podem ser um risco para a sociedade – envenenam os que as rodeiam, contagiando com a sua falta de iniciativa quem com elas partilha os dias.
As vidas que vivemos são, inevitavelmente, construídas de repetições, de tarefas que é preciso fazer hoje e amanhã e depois, de pequenas e grandes rotinas que quase parecem nortear os grandes objectivos pelos quais vale a pena lutar.
Somos animais de hábitos: há quem durma de barriga para baixo, quem se sente e cruze as pernas, quem beba água assim que acorda, quem precise de uns minutos de silêncio por dia, só para estar consigo próprio.
Há quem faça do sonho a sua rotina: sonha acordado, sonha a dormir – tem como objectivo o próprio sonho.
Acho bonita essa forma de vida, estranha, alguns pensarão, mas bonita. Sonhar acordado é dos exercícios que mais me ocupa. Gosto de supor, de imaginar, de planear, delinear, prever. De me perder em sonhos que não são conjecturas, são sonhos puros.
Essa é uma estratégia de escape da realidade que, desde cedo, aprendi a desenvolver com o intuito único de fugir a realidades que não me eram suficientes.
Cansam-me estas situações. Irritam-me. É verdade, fazem-me perder a paciência, mais que isso, o ânimo e a vontade de investir, porque, ainda que por breves momentos, deixo de considerar o investimento vantajoso.
Mas depois o que está no recôndito, que nem é tão recôndito assim, manifesta-se em desagrado íntimo e pessoal e, em última análise, em culpa.
Juro, juro que gostava de me enfiar num buraco e esquecer, por momentos, tudo, mesmo tudo. Talvez assim, quando acordasse, me sentisse nova, pelo menos nos pensamentos. Não existiram memórias más de ti, pré-concepções, juízos pré-determinados – existiria apenas a verdade de nós os dois, naquele espaço e momento e esse seria a derradeira prova de fogo para este “nós”.
Se calhasse de nos amarmos outra vez, seria porque tinhas mudado. Não acredito que hoje aceitasse viver assim, ainda que soubesse estar a viver um amor.